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quarta-feira, 27 de abril de 2011

Empresas disputam "sacolas substitutas"


Com o fim das sacolas plásticas no Estado de São Paulo, a indústria de embalagens, que emprega mais de 30 mil no país, já reage de duas formas: protesta e faz planos para se adaptar. Em jogo está um mercado que, por ano, fabrica 14 bilhões de sacolas e fatura de R$ 800 milhões a R$ 1 bilhão. Hoje, cerca de 30 das 200 empresas que fabricam sacolinhas plásticas têm pequena fatia destinada à produção de embalagens feitas a partir de matriz renovável. É o caso da Extrusa Park, empresa que supre Jundiaí e Belo Horizonte com sacolinhas "biodegradáveis compostáveis" (leia ao lado), feitas com tecnologia da Basf.
Mudança de cenário assustaEles saíram na frente ao apresentar, na feira da Apas (Associação Paulista dos Supermercados) do ano passado, um produto que agradasse mais aos supermercadistas do que a única alternativa existe à época, a "oxibiodegradável" (acusada de deixar partículas nocivas no solo). Apesar de deter o monopólio do abastecimento de duas cidades que aboliram as sacolinhas, apenas 10% de sua produção é voltada às embalagens feitas com amido, até seis vezes mais cara. E a mudança de cenário assusta. "Esse projeto para a indústria plástica não é positivo. Por mais que o faturamento unitário seja maior, não corresponde à perda de volume. Oferecemos a alternativa porque não temos outra maneira. Mas imagino que vá se reduzir o número de empregados e de equipamentos", diz Gisele Barbin, gerente comercial da Extrusa.
Ecológicas ocupam 5% do mercado em Jundiaí Em Jundiaí, que baniu as sacolas comuns no fim do ano passado, as ecológicas vendidas nos caixas dos supermercados só ocuparam 5% do "mercado" - o resto foi preenchido por carrinhos de feira e retornáveis. A Apas estima que o consumo anual de sacolas no Estado cairá 90%, para 258 milhões de unidades. Ou seja, o mercado irá diminuir muito. "Eu diria que cerca de 6.000 empregos em São Paulo estarão em jogo. Gostaríamos de ser chamados para a discussão", diz Alfredo Schmitt, presidente da Abief (associação da indústria de embalagem flexível). As embalagens oxibiodegradáveis (decompostas no ar) e as hidrobiodegradáveis (água) disputam o mercado que sobrar. Cada tecnologia encomenda estudos para parecer mais "verde". A oxibiodegradável leva 1% de um composto acusado de deixar resíduos poluentes no ambiente.


Oxibiodegradável custa 6% a 7% a mais
Os defensores refutam. A vantagem é que sua produção custa de 6% a 7% a mais do que o plástico comum. Em Belo Horizonte, lojistas afirmam que pagam até 50% mais por elas.
Nos países que baniram as sacolinhas, houve redução da quantidade de papel e de plástico nas embalagens. Consumidores também passaram a usar menos sacolas. "O consumidor vai querer usar bem aquilo que paga; vai levar muito menos sacolas para uma mesma compra, vai ter que levar a sacola retornável e se programar para as compras", diz João Sanzovo, diretor da Apas.
A principal resistência, contudo, vem dos que usam sacolas plásticas para o lixo. Com o fim das sacolas em Jundiaí, o consumo de sacos pretos cresceu em 20 toneladas. Mas estes já são produzidos, com plástico reciclado.
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Ao dia, BH tira 350 mil sacolas de circulação Cerca de 350 mil sacolas plásticas deixaram de circular a cada dia em Belo Horizonte, primeira grande cidade brasileira a aboli-las, segundo os supermercados. Desde a semana passada, a loja que der a embalagem gratuitamente pode ser multada em até R$ 2.000. Uma alternativa é comprar por R$ 0,19 uma unidade de sacola biodegradável, feita de amido de milho. Segundo a Associação Mineira dos Supermercados, eram distribuídas 450 mil sacolas todos os dias na cidade. A venda de sacolas biodegradáveis representa cerca de 20% desse total, de acordo com a entidade. "É o típico caso do consumidor, do cidadão, pagando a conta pela omissão do poder público", reclama o empresário Andres Lobato, 44, que ontem comprou 5 sacolas retornáveis, as ecobags, por R$ 2 cada uma, para acomodar as compras em hipermercado. Já a cabeleireira Leila Garcia, 33, disse, ao sair de um sacolão, que ressuscitou o carrinho de feira. "Apoio a lei, pela natureza, e espero que ajude os comércios a dar descontos."

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Banir plástico não é consenso entre ambientalistas
É glorioso que exista, no começo deste século, uma noção inédita de que o planeta não é uma lixeira sem fundo. Bem ou mal, o discurso verde pegou. Não é consenso, porém, que banir as sacolinhas seja uma vitória ambiental. Existem pelo menos três questões importantes que são levantadas pelos ambientalistas. A primeira se refere ao fato de que as sacolinhas representam fração bem pequena do lixo nacional: 1,29%. Certamente as sacolinhas criam problemas sérios, como entupimentos na rede de esgoto e danos à vida marinha. Mas é necessário tomar cuidado para não torná-las um bode expiatório ambiental, deixando em segundo plano questões mais importantes, como o aquecimento global ou o desmatamento. Corremos o risco de ver o sujeito que vai ao mercado com a sua camionete movida a diesel se considerando ecologicamente correto por usar uma ecobag.
Última questão se refere a quem vai pagar a contaNas palavras do cientista ambiental britânico James Lovelock, a preocupação atual com as sacolas é como estar no Titanic afundando e se preocupar em "reorganizar as cadeiras no convés". A segunda crítica é que as sacolas vão ser substituídas por outras, biodegradáveis, feitas a partir de milho. Elas se decompõem rapidamente, algo maravilhoso, mas há de questionar até que ponto vale a pena usar comida para fazer sacolas, inflacionando alimentos. A última questão se refere a quem vai pagar a conta. Quem assinou o acordo foram os supermercados e o governo estadual, mas o custo ficará para o consumidor. Cada sacolinha de milho vai custar R$ 0,19. Hoje, os mercados incorporam ao preço dos produtos o custo das sacolinhas. Isso vai ser devolvido ao cliente? Em tempos de marketing verde, parece que os supermercados ganharam uma oportunidade única de reduzir custos e, de brinde, vender uma imagem de ecologicamente corretos.

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Países divergem quanto à proibição das embalagensEnquanto alguns países têm apertado o cerco ao uso das sacolas plásticas, em outros o uso é liberado. Nos EUA, por exemplo, não há uma regra nacional sobre o assunto, mas algumas cidades já tomaram medidas para impedir a proliferação das sacolas. A primeira a banir seu uso foi San Francisco, em 2007, seguida por Portland e Seattle. Segundo a ONG Clean Air Council, os americanos usam 1 bilhão de sacolas plásticas por ano, e menos de 1% é enviado para reciclagem. Embora seja um dos países mais avançados em uso e pesquisa de energias "limpas", Israel engatinha quando o assunto é reciclagem de lixo e restrições às sacolas.
430 milhões de sacolas plásticas/mês são consumidas em Israel três anos, projeto de lei que proibiria o comércio de ceder sacolas plásticas foi aprovado no Parlamento, mas até hoje não foi sancionado, e as sacolas são fartamente distribuídas. Nos territórios palestinos a situação não é diferente, e pouca gente leva sua própria sacola de casa.
Segundo estimativa do Ministério do Meio Ambiente de Israel, 430 milhões de sacolas plásticas são consumidas todo mês pelo varejo, o equivalente a duas por dia por habitante do país.
Em outros países, a situação não é muito diferente. Na Suíça, por exemplo, não há lei que proíba a distribuição das sacolas. Alguns supermercados é que tomaram a iniciativa de banir as sacolinhas, por conta própria.  Na Itália e na França, só a distribuição de sacos biodegradáveis é autorizada. Para desestimular o consumo, Alemanha, Dinamarca, Irlanda, África do Sul, China e partes da Austrália proíbem a distribuição gratuita de sacolas. Bangladesh proibiu as sacolas em 2002, após diagnosticar que o entupimento de bueiros por plástico foi o fator responsável pela grande inundação de 1998 no país.  Na África, estabelecimentos de Ruanda, Quênia, Tanzânia, Eritreia e Somália são proibidos de dar sacolinhas./
FSP B5

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